domingo, 27 de junho de 2010

CINDY, ELA?

Cindy, 19, touro, estudante, era um rapazinho muito do comportado até que foi viver com uma tia rabugenta e duas primas patricinhas. Isso logo depois que sua mãe o abandonou para ir trabalhar em uma casa suspeita na Riviera Italiana. Como morava de favor a mulherada vivia aproveitando de sua boa vontade:
- Minha chapinha Cindy, você não quer que eu saia com o cabelo desse jeito, né? Ai, ai, ai! E Cindy corria para pegar a chapinha resmungando.

- Cin-dy, Cin-dy! Cadê meus cílios postiços, sua praga! E Cindy respondia baixinho, com o pente atravessado na boca:
- Deve estar na gaveta da cômoda, junto com seus vibradores, encalhada...
- Ih... Tem gente que está besteirenta hoje!

A vida se arrastava melancólica. Cindy era sonhadora mas não fazia muitos planos para o futuro - já o futuro tinha cada plano para Cindy!

Um dia chegaram três convites para a festa mais esperada do ano. Os olhinhos dela brilharam só de imaginar a recepção.

- Cai na real travesti mondronga! Mesmo que você tivesse convite não deixariam gente da sua laia entrar na festa, tolinha!
- Se você se comportar a gente deixa você ir junto no táxi, para ver o luxo do pôvo na entrada! Rárárá!
Suspiro...

Mas a semana passou voando e quase na hora da festa Cindy apareceu linda, com um vestido de segunda mão que uma amiga rica tinha deixado de presente. As primas ficaram amarelésimas com o encanto que emanava do menino.
- Meu vestido! Gritou a mais invejosa, enquanto rasgava a alcinha da peça de alta costurada.
- Sua ladra! Ganiu a outra, acabando de estragar a noite da coitadinha.
- Titia, juro que o vestido era meu!

A tia, com um sorriso de manteiga bem rançosa, não fez nada. O taxi chega. As primas saem gargalhando e batendo a porta da frente. Cindy, toda jururu, senta na escrivanhinha de seu quarto, e, calada, fica olhando as lágrimas caindo e borrando a página do dia da festa em sua agenda coloridinha.

Nisso uma luz de holofote invade o quarto iluminando a infeliz. Puf! Começa a tocar "Its raining man, Haleluia!", versão do Edson Cordeiro. Uma Fada Madrinha com a cara da Madonna e o jeitão da Regina Casé aparece no meio do quarto com uma vara de condão extra-large na mão.

- Sai dessa urucubaca minha filha! Levanta esse astral: joga a poeira pro alto e vumbora!

A música continua. Uns cinco salagadulas, menchicabulas e bipti-bopti-boo depois Cindy se vê no espelho completamente transformada - estonteante, maravilhosa, com um vestido que eu nem te conto e um decote que eu vou te contar. Sapatinhos de cristal e tudo!
 
De um pedaço de casca de abóbora na sarjeta a Fada faz uma Ferrari, com bancos de couro de zebra e detalhes em prata italiana.

Os dois ratinhos, que estavam esperando com as mãos para trás, juraram que iriam entrar com uma queixa no Sindicato dos Figurantes de Fábulas, pedindo o pagamento da quebra de contrato, horas-extras e danos morais. Meus queridos, não tem espaço para cocheiro em Ferrari, né?
- A gente veio trabalhar. Se o escritor ficou maluco nóis não tem nada a ver. Ou paga ou vai pro pau.

Cindy liga o carro, aumenta o volume do som: "For the first time in his-to-ry, it's gonna start raining men!", e sai cantando pneu!

Na porta do evento uma badalação danada. De Ferrari quem precisa do convite? Ela entrega a chave para o manobrista e sobe as escadarias, com borboletas no estômago, suando frio, em direção ao sonho de uma vida toda.

A salão para. Todos os olhares na mesma direção. Otávio Mesquita, embasbacado, nem conseguiu continuar a entrevista. A Kelly Key partiu pra cima, querendo garantir uma pontinha na saraivada de fotos. Em meia hora Cindy conheceu todos os vips, riquíssimos e meio famosos. A bolsinha entupida de cartões de visita e guardanapos com telefones. As primas e a tia queriam virar do aveso.


Chiquinho Stavros, o dono da festa, grudou nela e valsou a noite inteira ao som eletrônico dos DJs internacionais – que aliás também adoraram a Diva pop. Seus 15 minutos de Andy se estenderam por mais alguns instantes.

E ela dançava, e dançava, e sorria como se estivesse em uma propaganda de Modess, e... o quê minha filha? Que é que tem a meia noite? Ah é! Pois então: cinco para meia noite o celular de Cindy toca o alarme. Ela fica branca que nem vela e dispara para a saída sem nem dar satisfação para o milionário encantado.

Na escadaria, surpresa! Cai um dos lindos sapatinhos de cristal 43 (eu não tinha mencionado o size ainda?). Chiquinho, bêbado e inconsolável, pegou o sapatinho e ficou olhando, enquanto a Ferrari cor-de-abóbora soltava faíscas do protetor de carter rua acima pelos Jardins Paulistanos.

Ufa! Meia noite em ponto tudo desapareceu e Cindy se viu a pé, com uma casca de abóbora na mão, faltando ainda uns dez minutos de caminhada para sua casa.

No dia seguinte, ainda na hora do café, a campainha tocou: Criiinn! C-c-criiiiiin!
A tia abre a porta e os seguranças do Sr. Stavros explicam a situação:
- O patrão está chegando aí. Nos temos ordens de experimentar o sapatinho em todas as moças que foram à festa. Só faltam vocês.
Um carrão preto estaciona enviesado na calçada e Chiquinho desce com mais dois seguranças.

As primas experimentam o sapatinho, que fica folgado, é claro.

Quando a tia tentava forçar a barra para experimentar também, Chiquinho percebe Cindy, sem peruca, o cabelo preso por grampos, a cara toda borrada de choro, toda borocochô, sentadinha numa tora (atenção na foto antes de reclamar) ao lado da lareira no canto da sala.

- Você? Não pode ser! Mas...

O sapatinho encaixa perfeitamente no pezinho dela. Chiquinho solta um gritinho:
- Ai! Que pesadelo! Cheguei a pensar que não te encontrava! Que-ri-da, me diz onde é que você comprou esse sapatinho que eu quero um do meu tamanho! Vou arrasar no Gala Gay desse ano! Abalou! 

Fecha a cortina e sobe o som: "Hear the tunder. Don't you lose your head. Rip off the roof and stay in bed... Its raining man, Haleluia!"