Você sabe o que é tinta nanquim? A tinta nanquim é empregada especialmente para desenhos e aquarelas. Desenvolvida há mais de dois mil anos, essa tinta é feita de carvão moído bem fininho misturado em água com uma cola, para o carvão não se separar da água. Espertinhos esses chineses, né?
Caco também é muito esperto, e ele é bom em muitas coisas: subir em bambu, dar golpes de kung-fu. Ah! Caco também é ótimo em achar gostosuras. Nenhum macaquinho sente mais rápido o cheiro de bananas maduras!
Qual sua fruta predileta? Você lendo esse livro, reconhece o cheiro de sua fruta preferida quando ela está madura?
Caco também gosta de fazer amigos, de conversar com outros animais, e, de vez em quando, com um ou outro monge. Mas o que ele mais gosta mesmo é de bananas e de sua amiguinha predileta: a formosa macaquinha Marimari.
Caco mora com mais uma turma de macacos, e a turma toda estava reclamando da falta de bananas na região. Todo mundo reclamava, reclamava, mas não fazia nada para resolver a situação.
Tinha até umas cerejinhas, bem mirradinhas, para enganar a fome. Mas, como Caco, todo macaco prefere mesmo é comer bananas. Quando você encontrar um macaco tire a dúvida: ofereça uma banana e qualquer outra gostosura para ver qual ele prefere!
Pois, como eu estava dizendo: estavam todos borocochôs. Querendo impressionar Marimari, Caco exclamou: “Vou conseguir bananas para todos!” Foi uma risada geral!
“Quem vem comigo?” Os outros macaquinhos continuaram a dar risadas. Seu primo Nico disse: “Deixa de ser bobo Caco. Você não sabe que já olhamos em todas as bananeiras das redondezas?”.
“Pois não olharam direito. Eu vou encontrar bananas madurinhas!” Ninguém deu bola. Só Marimari acreditou nas palavras de nosso herói.
Caco seguiu determinado, pulando, de cipó em cipó e de bambu em bambu. Logo avistou Nanda Li Panda, uma amiguinha que ele não encontrava há muito tempo. Ela estava comendo brotinhos de bambu.
“Oi Li, como é que estão esses brotos?” “Uma delícia...” respondeu a ursinha, meio contrariada. Caco não entendeu: “Mas Nanda, se os brotos estão uma delícia, então por que a cara triste?
“É que eu encontrei, no caminho do Monastério, dois vasos lindos. Lindos mesmo. Balancei os dois. Um estava pesado e cheiroso. O outro estava mais leve”.
“E o que você fez?” perguntou Caco. “Espiei, mas não consegui ver o que tinha dentro, e minhas mãos são grandes demais para entrar pelo bocal. E o peso, nem te falo. Não dava para arrastar até aqui.” Nanda Li era meio preguiçosinha...
Você sabia que Pandas correm perigo de extinção? Isso por causa da caça indiscriminada ocorrida no passado, pela destruição das florestas onde vivem, e, principalmente, pela baixa taxa de natalidade – pandinhas são preguiçosinhos até para namorar...
Nanda continuou mastigando suas folinhas de bambu e Caco olhou as mãos grandes da pandinha e suas mãozinhas pequenas e braços fininhos. Não pensou duas vezes: saiu correndo e quicando em direção aos vasos. Esqueceu até de se despedir da amiguinha.
Perto do Monastério Caco avistou os vasos. Eram mesmo bem grandes e pareciam pesados pra xuxu. Um deles era azul, de pescoço comprido, barriga bojuda e bocal pequeno. “Ih! Parece meu primo Nico: barrigão, pescoção e boquinha miúda!” Sorripensou Caco. O outro, mais colorido, era um pouco mais longo, mas também tinha o bocal pequeno.
Ele aproximou-se, cauteloso, sentiu o cheiro do primeiro vaso, de cores alegres, e não sentiu cheiro algum. “Blah!” Depois cheirou o azul, e pimba! “Cheiro de bananas maduras!” Enfiou o braço até o fundo do vaso azul. Mexeu pra lá, mexeu pra cá, e conseguiu pegar as bananas.
O problema era como tirá-las de lá: pelo pescoço do vaso passava só o braço e a mão aberta. De mão fechada, com as bananas, que pareciam bem grandes, não dava para tirar nada.
Esqueci de dizer que Caco era muito curioso? Pois Caco era muito curioso. Daí, sem largar as bananas do outro vaso, adivinha o que ele fez? Fez isso mesmo: enfiou o outro braço, no segundo vaso, que era ainda mais pesado que o primeiro. Não tinha nada dentro desse.
Com a ajuda dos pés e de uma pedra grande, ele tentou quebrar o vaso cheio de bananas, mas que dureza!
Bateu um no outro, virou os vasos de ponta cabeça, pulou e tentou tudo que conseguiu imaginar, mas o lindo vaso não quebrava, nem por decreto do Imperador.
É que os chineses desenvolveram uma técnica de produzir porcelana com cerâmica cozida e vitrificada, com uma receita secreta que eu vou contar só para você: eles misturavam argila e uma areia bem fininha, colocavam no forno, depois cobriam com um verniz que criava uma camada brilhante, impermeável e protetora. Este verniz, junto com a areia, deixava os vasos duríssimos. Durante a dinastia Ming a moda era pintar tudo de azul. Meio sem graça esse tal de Ming Né? Só azul, poxa!
Mas nada disso interessava Caco, ele só pensava: “Como é que colocaram tanta banana nesse vaso? Entrou tem que sair!”
Nisso, vinha passando, em uma velha bicicleta vermelha, um monge muito jovem, que sorriu ao ver a cena.
Lá na China mais meio bilhão de pessoas anda de bicicleta. Além de ser bom para a saúde também é ecologicamente correto: a única poluição que uma pessoa pode causar andando de bicicleta é soltar um pum – mas isso a gente já solta com ou sem bicicleta, né?
Só que ninguém tinha soltado pum: o problema era que o Caco estava agoniado tentando tirar as bananas do vaso azul. O Monge perguntou:
“Por que estás tão aflito, doce Caco?” “São esses vasos: um deve ter umas dúzias de bananas. O outro...” Ele espiou pelo pescoço do vaso. “O outro nem sei o que tem. E não consigo tirar nada, de nenhum dos dois.”
“Se não consegue resolver a questão, porque a aflição? Um problema só é um problema se tem solução. Não preferes fazer outra coisa...”
“Ah, não vou deixar esses vasos lindos aqui, né? Ainda mais que um está cheio de bananas! Ouviu bem! Bananas madurinhas!” Se irritou Caco, e pensou: “Por que esse monge vem me dar pitaco?”
O monge sorriu serenamente e disse: “Hoje é seu dia de sorte, Caco...” “Dia de sorte nada: eu estou é numa tremenda enrascada...”
“E quem te colocou nessa enrascada?” Perguntou o Monge. Caco fez cara de ué? “Pense bem Caco”. Caco continuou pensando, mas ficou sem saber responder.
O rosto de Caco iluminou-se: “Foi essa pessoa que fez o vaso tão duro e com um pescoço tão fininho!” O monge sorriu novamente. “Claro que foi!” Continuou Caco: “Senão eu tirava as bananas...”
O monge continuou balançando a cabeça e sorrindo afetuosamente. Caco imaginou que essa não devia ser a resposta certa, já que os Monges eram bons em acertar respostas. O monge limitou-se a dizer: "Podemos escolher o que semear, mas somos obrigados a colher aquilo que plantamos".
“Lá vem ele de novo: eu estou carregando um vaso com bananas! Não estou plantando nada!” Enquanto Caco pensava, o monge continuava sua caminhada (ou bicicletada, se preferir). Caco resolveu seguir carregando, aliás, arrastando, os dois pesados vasos - e bota pesado nisso! Ele já estava suando, e cada vez com mais fome.
“Monge,” disse Caco, “Estou cansado. Podemos parar um pouco?” E o monge respondeu: “Você pode. Eu não, porque tenho um compromisso com outros monges.”
Caco lembrou-se do compromisso firmado com seu grupo de amigos. Lembrou da linda Marimari, e, enquanto refletia, um cheirinho bom de banana madura invadiu o ar!
“Êita! Tem banana da boa por aqui!” O monge concordou: “Acredito que sim.”, sentindo o cheiro na leve brisa fresca que descia de uma colina. Ao longe avistava-se uma pequena concentração de bananeiras, bem no topo de um morrinho. “Ai, ai, ai...” Reclamou. “Como é eu vou subir esse morrinho com esses vasos tão pesados...”
“Eu não disse que hoje era seu dia de sorte?
Tenho que seguir meu caminho, caro amigo Caco.” E despediu-se sorrindo. “Sua sorte é que hoje vais aprender valiosas lições. Lembre-se: se realmente entendemos o problema, a solução virá dele, porque a solução não está separada do problema.”
Caco imaginou que o monge não devia regular bem das idéias. Ele naquele dilema e o monge com todo aquele falatório? Pensou mais um pouco, olhando o monge que se afastava cada vez mais, em sua bicicletinha vermelha. Lembrou novamente dos amigos, lembrou de Marimari, e decidiu: “Quer saber o que mais? Deixa esses vasos para lá. Vou é atrás das bananas da colina...” E foi.
Na volta, com pencas cheias de dúzias de bananas madurinhas, quase tão pesadas quanto os vasos bonitos, encontrou outro macaco: também com as duas mãos enfiadas nos mesmos vasos.
Caco ofereceu-lhe ajuda: “Larga isso aí, eu tenho tanta banana aqui que dá pra nós dois comermos e ainda sobra um montão...” O outro macaco respondeu: “Nunquinha! Eu vou dar um jeito de carregar esses vasos. Achado não é roubado, e tira o olho que eu vi primeiro!”
“Amiguinho macaco, eu acabei de passar pela mesma situação que você. Acredite: ficar arrastando esses vasos por aí só vai te dar é uma canseira.” Mas o outro macaquinho não arredava o pé: “Tira o olho dos meus vasos!” Caco seguiu seu caminho. Com todas aquelas bananas, e o fim do dia chegando, não dava tempo de convencer o macaco teimoso.
O único problema era o peso dos cachos de bananas. Foi quando ele encontrou uma várzea, e decidiu se refrescar e descansar um pouquinho.
“Ribit!”
“Êita, quem está aí?”
“Sou Han, e essa área da lagoa é minha!”.
Era uma ranzinha bem verdinha, toda emperdigada.
“Desculpe, Dona Han, só estou descansando um pouquinho, viu?.”
Replicou Caco.
“E o Senhor está cansado por quê?”.
“São essas pencas de bananas...”
“Ahn... Conheço alguém que pode te ajudar...”
“Quem?”
“O Senhor Búfalo D´água. Ele mora na curva do rio.”
Respondeu Dona Han.
“A Senhora olha minhas bananas enquanto eu o procuro?”
Perguntou Caco.
“Pode deixar, nessas bananas ninguém mexe!”
Afirmou a rãzinha, pouco maior que uma xícara, mas brava como um tigre.
Enquanto Caco foi procurar o Senhor Búfalo D´água, Dona Han resolveu fazer o inventário das bananas sob sua guarda. Eram três pencas, cada uma com nove cachos de uma dúzia cada. Você pode ajudar Dona Han com a conta?
Caco encontrou o Senhor Búfalo D´água, pastando em um arrozal.
“Senhor Búfalo D´água, meu nome é Caco, e estou carregando um peso muito pesado para mim. O senhor pode me ajudar?”
“Posso”. Respondeu o Senhor Búfalo.
“E o que o Senhor quer como pagamento?”
“Sua amizade.” Caco achou a proposta válida. Sua amizade ele poderia prometer.
O Búfalo D´água transportou as bananas até perto da turma de Caco. Caco agradeceu e convidou o novo amigo para participar das festividades. Nico foi o primeiro a ver o Senhor Búfalo chegando, carregado de bananas.Foi aquela festa: “Urra! Caco conseguiu! Como foi que você encontrou tantas bananas?”
“Ah, com a ajuda de alguns amigos, foi moleza...” Respondeu Caco.
Caco dividiu as bananas com toda a turma, reservando o cacho mais cheiroso para sua amiguinha Marimari. Ele ganhou até um beijinho na testa, e ficou mais vermelho do que a bicicletinha do Monge!
fim






Um comentário:
Eh...eh...lá vem Caco o macaco...
Sou suspeita, mas seu texto continua muito bom.
Beijão
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